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Glossário Operacional de Logística Afetiva

Organização: AMORFACETADO
Repositório: https://github.com/AMORFACETADO/logistica-afetiva
Versão: 1.1 — Maio de 2026
Tipo de documento: Working Paper / Technical Report
Licença: Creative Commons CC BY 4.0


Resumo

Este documento apresenta as definições operacionais do campo emergente de Logística Afetiva — a gestão sistemática de acordos, agendas, limites e contextos em estruturas relacionais com múltiplos parceiros ou alta complexidade cognitiva. O glossário foi desenvolvido para nomear lacunas no vocabulário técnico disponível para pessoas em relacionamentos não-monogâmicos e contextos neurodivergentes.

Cada entrada inclui: definição operacional, delimitação (o que não é), exemplo concreto e métrica observável.

Palavras-chave: amor facetado, logística afetiva, relacionamentos complexos, não-monogamia consensual, neurodivergência, gestão relacional, poliamor, acordos relacionais.


Por que este glossário existe

Relacionamentos complexos — com múltiplos parceiros, estruturas abertas ou envolvendo neurodivergência — geram uma carga de gestão que não tem nome na linguagem comum. Sem nome, não há ferramenta. Sem ferramenta, a sobrecarga permanece invisível e o problema é atribuído à pessoa, não à falta de infraestrutura.

Este glossário nomeia essa carga para que ela possa ser endereçada.


Taxonomia do Campo

Camada Função Termos
0. Fundamento Nomear a natureza do amor multidimensional Amor Facetado
1. Estrutura Mapear o formato dos relacionamentos Topologia Relacional, Hierarquia de Parceria, Metamour
2. Carga Nomear os custos invisíveis Drenagem Cognitiva Relacional, Sobrecarga de Implícitos, Fadiga de Negociação, Polissaturação, Carga de Ancoragem Relacional
3. Acordo Descrever dinâmicas de pactos Acordos Revisitáveis, Deriva de Acordo, Limite Negociado, Acordos de NMC, Externalização de Expectativa
4. Gestão Organizar a operação diária Logística Afetiva, Gestão de Turno Afetivo, Protocolo de Check-in, Sobreposição de Demandas, Infraestrutura Relacional
5. Sistema Suportar com ferramentas externas Memória Externalizada, Sincronização Stateless, Regulação Assíncrona, Assimetria de Processamento, Colapso de Contexto, Carga Mental Relacional Distribuída

Definições Operacionais


0. Amor Facetado

Definição operacional:
Modelo de amor em que a capacidade afetiva de uma pessoa se expressa em dimensões distintas, simultâneas e não-competitivas — cada faceta ativa com uma pessoa diferente, cada uma revelando um aspecto genuíno do mesmo ser afetivo. Não descreve quantos parceiros existem: descreve a natureza do amor em si. Uma gema não escolhe ter múltiplas faces — é sua estrutura que as gera. O Amor Facetado parte do mesmo pressuposto: a capacidade afetiva multidimensional não é um comportamento aprendido nem uma preferência cultural. É uma configuração.

Não é: Poliamor, infidelidade, incapacidade de comprometimento, acúmulo de parceiros ou fragmentação emocional. Não é o mesmo que amar várias pessoas ao mesmo tempo no sentido aditivo — é amar de formas que não cabem em uma única dimensão relacional, independente do número de vínculos ativos.

Exemplo concreto:
Uma pessoa que, com o Parceiro A, ativa sua dimensão intelectual e filosófica. Com o Parceiro B, sua dimensão de cuidado e presença física. Com o Parceiro C, sua dimensão criativa e lúdica. Nenhuma dessas facetas compete com as outras — cada uma é genuína, cada uma é completa em si mesma. Remover qualquer uma delas não simplifica o amor: apaga uma dimensão real do ser.

Métrica observável:
Número de dimensões afetivas distintas que uma pessoa consegue nomear como ativas em sua estrutura relacional atual — e grau de sobreposição percebida entre elas. Sobreposição baixa indica facetas funcionalmente distintas; sobreposição alta indica que o modelo pode ser poliamor convencional, não Amor Facetado.


1. Logística Afetiva

Definição operacional:
Gestão sistemática de acordos, agendas, limites e contextos em estruturas relacionais com múltiplos parceiros ou alta complexidade cognitiva.

Não é: Terapia, comunicação não-violenta, gestão emocional ou resolução de conflitos.

Exemplo concreto:
Três parceiros, agendas distintas, combinados diferentes com cada um, nenhum registro compartilhado. A logística afetiva é o sistema que organiza isso — não o vínculo em si.

Métrica observável:
Horas por semana gastas em renegociações repetidas do mesmo acordo.


2. Topologia Relacional

Definição operacional:
Representação estrutural de uma rede afetiva — quem está conectado a quem, com que tipo de vínculo, com que grau de interdependência — para fins de gestão e comunicação.

Não é: Hierarquia ou julgamento de valor entre vínculos.

Exemplo concreto:
Desenhar os parceiros, as conexões entre eles (metamours, amizades sobrepostas), e identificar onde há dependências críticas ou pontos únicos de falha emocional.

Métrica observável:
Número de conexões ativas não mapeadas descobertas após o primeiro exercício de topologia.


3. Drenagem Cognitiva Relacional

Definição operacional:
Custo de memória operacional para manter contextos emocionais distintos com múltiplos parceiros de forma simultânea, sem suporte de sistema externo.

Não é: Estresse, ansiedade ou burnout genérico.

Exemplo concreto:
Lembrar que o Parceiro A prefere comunicação direta, o Parceiro B precisa de 24h de processamento, e o Parceiro C tem limite de não discutir trabalho — tudo ao mesmo tempo, de cor.

Métrica observável:
Número de vezes por mês que o mesmo conflito é reaberto por falta de registro do acordo anterior.


4. Sobrecarga de Implícitos

Definição operacional:
Acúmulo de acordos nunca verbalizados que geram expectativas não negociadas, criando conflitos cujas causas são invisíveis para todas as partes.

Não é: Manipulação, jogos de poder ou má-fé.

Exemplo concreto:
"A gente nunca falou sobre isso, mas eu esperava que você soubesse."

Métrica observável:
Quantidade de conflitos por mês cujo gatilho real nunca foi explicitado anteriormente.


5. Fadiga de Negociação

Definição operacional:
Estado de esgotamento cognitivo resultante de ciclos excessivos de negociação de acordos relacionais, levando à aceitação de termos desfavoráveis ou ao abandono de negociações necessárias.

Não é: Preguiça, desinteresse ou evitação de conflito por covardia.

Exemplo concreto:
Após a décima conversa sobre o mesmo tema em um mês, aceitar um acordo que não satisfaz apenas para "encerrar o assunto".

Métrica observável:
Proporção de acordos fechados em sessões de negociação com duração superior a 90 minutos.


6. Polissaturação

Definição operacional:
Condição em que o número de vínculos afetivos ativos excede a capacidade cognitiva e emocional disponível, resultando em qualidade reduzida de presença em todos os vínculos.

Não é: Promiscuidade, falta de comprometimento ou desorganização moral.

Exemplo concreto:
Quatro relacionamentos ativos, dois em crise simultânea, com disponibilidade emocional fragmentada ao ponto de nenhum parceiro receber presença real.

Métrica observável:
Número de compromissos relacionais cancelados por semana por "falta de energia".


7. Carga de Ancoragem Relacional

Definição operacional:
Custo cognitivo e emocional de manter vínculos históricos que exigem atualização constante de contexto após períodos de distância ou interrupção.

Não é: Saudade, nostalgia ou apego disfuncional.

Exemplo concreto:
Retomar um relacionamento após três meses e gastar a primeira semana inteira "recalibrando" contextos, acordos e expectativas.

Métrica observável:
Tempo médio de "recalibração" após interrupção de 30+ dias.


8. Deriva de Acordo

Definição operacional:
Deslocamento gradual e implícito do conteúdo de um acordo relacional, que ocorre sem que nenhuma das partes o reconheça formalmente — até que uma divergência revele versões incompatíveis do mesmo combinado.

Não é: Traição, descumprimento intencional ou renegociação explícita.

Exemplo concreto:
Acordo inicial de "fins de semana alternados". Após seis meses de exceções acumuladas, cada parceiro opera com uma expectativa diferente sobre o que é o acordo atual.

Métrica observável:
Número de "versões" diferentes do mesmo acordo ao solicitar que cada parte descreva os termos atuais.


9. Colapso de Contexto

Definição operacional:
Falha de comunicação que ocorre quando mensagens projetadas para um contexto relacional específico são recebidas em contexto diferente, gerando interpretação incompatível com a intenção original.

Não é: Mentira, dupla vida ou inconsistência de caráter.

Exemplo concreto:
Uma conversa íntima compartilhada por um parceiro com outro sem o contexto original, resultando em interpretação distorcida da intenção.

Métrica observável:
Número de conflitos por mês originados por "desvio de contexto".


10. Sobreposição de Demandas

Definição operacional:
Situação em que múltiplos vínculos apresentam demandas de atenção ou presença de forma simultânea, excedendo a capacidade de resposta disponível.

Não é: Má gestão de tempo ou falta de organização pessoal.

Exemplo concreto:
Dois parceiros em crises emocionais simultâneas, ambos demandando presença no mesmo fim de semana.

Métrica observável:
Número de demandas simultâneas não atendidas por período de 30 dias.


11. Acordos Revisitáveis

Definição operacional:
Combinados relacionais estruturados com versão, data de criação e gatilho de revisão pré-definido — em oposição a acordos implícitos ou "combinados uma vez, válidos para sempre".

Não é: Contrato, regra, ultimato ou imposição.

Exemplo concreto:
"Acordamos que X até o final do mês, quando revisitamos com base no que aconteceu."

Métrica observável:
Frequência de revisão voluntária vs. frequência de conflito por acordo desatualizado.


12. Gestão de Turno Afetivo

Definição operacional:
Organização intencional de tempo de qualidade com cada parceiro de forma que nenhum perceba a distribuição como comparativa ou hierárquica.

Não é: Escala de prioridade, hierarquia ou divisão igualitária matemática de tempo.

Exemplo concreto:
Planejar com antecedência presença com cada parceiro considerando necessidades distintas — não horas iguais, mas presença adequada ao contexto.

Métrica observável:
Satisfação reportada por cada parceiro com distribuição de presença em período definido.


13. Assimetria de Processamento

Definição operacional:
Diferença de velocidade e estilo com que parceiros distintos processam mudanças emocionais ou conflitos — especialmente relevante em contextos de neurodivergência.

Não é: Incompatibilidade, disfunção ou falta de comprometimento.

Exemplo concreto:
Um parceiro processa em tempo real. O outro precisa de 48h. A assimetria não é o problema — a falta de sistema para acomodá-la é.

Métrica observável:
Delta de tempo médio entre evento e conversa produtiva para cada parceiro.


14. Protocolo de Check-in

Definição operacional:
Prática estruturada e periódica de verificação do estado relacional — com perguntas pré-definidas, frequência acordada e registro de pontos identificados.

Não é: Conversa casual ou monitoramento de satisfação.

Exemplo concreto:
Check-in semanal de 20 minutos com três perguntas fixas: "O que funcionou?", "O que ajustar?", "Algum acordo precisa ser revisitado?"

Métrica observável:
Redução de conflitos reativos após implementação de protocolo regular.


15. Limite Negociado

Definição operacional:
Fronteira relacional estabelecida por acordo explícito entre as partes, com escopo definido, consequências acordadas e processo de reavaliação estabelecido.

Não é: Regra unilateral, ultimato ou restrição imposta.

Exemplo concreto:
"Concordamos que não dormimos na casa do outro quando há visita de família, e revisamos esse combinado a cada seis meses."

Métrica observável:
Número de limites ativos com data de revisão definida vs. limites sem prazo.


16. Metamour

Definição operacional:
Parceiro de um parceiro com quem não se tem relacionamento afetivo direto, mas com quem se tem relação indireta por compartilhar um parceiro em comum.

Não é: Rival, ameaça ou obrigação de amizade.

Exemplo concreto:
A namora B e C. B e C são metamours um do outro — têm relação indireta sem necessariamente se conhecerem.

Métrica observável:
Nível de conforto reportado por cada parceiro com a existência e eventuais contatos de metamours.


17. Hierarquia de Parceria

Definição operacional:
Modelo de organização em que parcerias são explicitamente classificadas com diferentes níveis de prioridade, direitos e comprometimentos.

Não é: Julgamento de valor ou ranking de amor.

Exemplo concreto:
Estrutura primária/secundária onde o parceiro primário tem prioridade em decisões de moradia, com acordos explícitos sobre o que isso implica para parceiros secundários.

Métrica observável:
Clareza percebida por cada parceiro sobre seu status na estrutura relacional.


18. Acordos de Não-Monogamia Consensual

Definição operacional:
Conjunto explícito e negociado de termos que definem o escopo, limites e expectativas de uma estrutura relacional não-monogâmica, acordado por todas as partes.

Não é: Lista de regras unilaterais ou acordo tácito.

Exemplo concreto:
Documento que define: quais informações são compartilhadas, quais práticas de saúde sexual são exigidas, como novos parceiros são introduzidos, e quando o acordo é revisitado.

Métrica observável:
Número de termos do acordo que todas as partes conseguem enunciar de forma consistente.


19. Regulação Assíncrona

Definição operacional:
Processo de regulação emocional que ocorre em momentos distintos para diferentes parceiros, exigindo sistemas de espera e sincronização que acomodem ritmos diferentes.

Não é: Evitação, adiamento patológico ou passividade.

Exemplo concreto:
Após um conflito, o Parceiro A está pronto para conversar em 2 horas. O Parceiro B precisa de 3 dias. O sistema define como os dois se comunicam durante esse intervalo sem escalar o conflito.

Métrica observável:
Número de escaladas provocadas por pressão de resolução antes do tempo de processamento de uma das partes.


20. Externalização de Expectativa

Definição operacional:
Processo de tornar explícita e registrada uma expectativa que, de outra forma, permaneceria implícita — transferindo-a da memória individual para um sistema compartilhado.

Não é: Cobrança, exigência ou controle.

Exemplo concreto:
"Sextas são meu dia preferencial de conexão com você — posso indicar isso no calendário compartilhado?"

Métrica observável:
Redução de conflitos do tipo "eu esperava que você soubesse" após implementação.


21. Memória Externalizada

Definição operacional:
Transferência deliberada de acordos, contextos e histórico relacional para um sistema estruturado fora da mente — reduzindo a carga de memória operacional necessária para manter relações funcionando.

Não é: Diário emocional, notas aleatórias ou planilha genérica.

Exemplo concreto:
Registrar em sistema compartilhado: "Acordamos em X data que Y, com revisão em Z." Qualquer parceiro pode consultar sem precisar que o outro lembre e relate.

Métrica observável:
Redução de conflitos do tipo "mas você disse que..." por semana.


22. Sincronização Stateless

Definição operacional:
Coordenação relacional que não depende de nenhuma das partes manter memória emocional contínua do histórico de acordos — o sistema carrega essa função no lugar das pessoas.

Não é: Frieza emocional, distância ou falta de vínculo.

Exemplo concreto:
Dois parceiros retomam uma conversa após duas semanas sem fricção porque o contexto estava registrado — não porque ambos lembram de tudo.

Métrica observável:
Tempo médio para realinhar duas partes após período de interrupção ou evento inesperado.


23. Infraestrutura Relacional

Definição operacional:
Conjunto de ferramentas, sistemas, práticas e acordos que suportam o funcionamento de uma rede afetiva — análogo à infraestrutura de uma organização, mas aplicado ao domínio relacional.

Não é: Burocracia afetiva ou romantismo eliminado.

Exemplo concreto:
Calendário compartilhado + repositório de acordos + protocolo de check-in semanal + canal de comunicação assíncrona = infraestrutura relacional básica.

Métrica observável:
Tempo semanal economizado em renegociações após implementação de infraestrutura básica.


24. Carga Mental Relacional Distribuída

Definição operacional:
Distribuição intencional da responsabilidade de manutenção de acordos, protocolos e check-ins entre todos os parceiros — em oposição à concentração em uma única pessoa.

Não é: Terceirização de responsabilidade emocional ou ausência de cuidado.

Exemplo concreto:
Em vez de um parceiro sempre iniciar os check-ins, criar um sistema rotativo ou calendário que distribui essa função.

Métrica observável:
Distribuição percentual de iniciativa de check-ins entre os parceiros ao longo de um mês.


Sobre esta publicação

Organização: AMORFACETADO
Repositório público: https://github.com/AMORFACETADO/logistica-afetiva
Licença: Creative Commons CC BY 4.0

Os termos das Camadas 4 e 5 foram desenvolvidos e validados no contexto operacional do Agente ARIEL.

"Logística Afetiva — porque a sobrecarga não é sua. É da ausência de sistema."

Versão 1.1 — Maio de 2026 | AMORFACETADO